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IA e Dados

Prontidão para IA começa nos dados

Projetos de IA costumam travar muito antes do modelo: em dados sem dono, sem definição e sem qualidade conhecida. Medir prontidão é, em boa parte, medir a gestão de dados.

· 7 min de leitura · Ideavus

A conversa sobre inteligência artificial nas diretorias costuma começar pelo caso de uso: um assistente para o atendimento, previsão de demanda, leitura automática de contratos. A prova de conceito funciona na demonstração. Três meses depois, o projeto está parado porque o time descobriu que o cadastro de clientes tem quatro versões, que ninguém sabe qual sistema tem o preço correto e que a base histórica de pedidos perdeu dois anos numa migração.

Esse roteiro se repete com tanta frequência que já deveria estar no plano. A prontidão para IA depende de estratégia, pessoas e tecnologia, mas o fator que mais trava projetos em empresas médias é o estado dos dados.

O que a pesquisa diz sobre prontidão

Jöhnk, Weißert e Wyrtki (2021) entrevistaram especialistas para identificar os fatores de prontidão organizacional para IA. Eles organizaram os resultados em cinco categorias: alinhamento estratégico, recursos, conhecimento, cultura e dados. Na categoria de dados aparecem disponibilidade, qualidade, acessibilidade e o fluxo de dados entre sistemas.

A contribuição do estudo é mostrar que prontidão não é uma característica única. Uma empresa pode ter patrocínio forte da diretoria e cultura aberta à experimentação, e ainda assim não estar pronta porque os dados necessários para o caso de uso escolhido não existem na forma que o modelo precisa.

Gestão de dados é a base, e tem referência consolidada

O DAMA-DMBOK, publicado pela DAMA International, é a referência mais usada para organizar a gestão de dados. A segunda edição (2017) descreve áreas de conhecimento que incluem governança de dados, arquitetura, modelagem, armazenamento, segurança, integração, dados mestres e de referência, qualidade de dados e metadados.

Não é preciso implementar todas as áreas antes de usar IA. Mas algumas são pré-requisito para qualquer caso de uso sério.

  • Governança: quem é dono de cada domínio de dados e quem decide sobre definições e acesso.
  • Dados mestres: uma versão confiável de cliente, produto, fornecedor.
  • Qualidade: métricas conhecidas de completude, exatidão e atualidade para os dados que alimentarão o modelo.
  • Metadados: um glossário mínimo que diga o que cada campo significa e de onde vem.
  • Segurança: classificação dos dados e regras de acesso, especialmente para dados pessoais.

Risco e conformidade entram cedo

O NIST AI Risk Management Framework (AI RMF 1.0), publicado em 2023, organiza a gestão de riscos de IA em quatro funções: governar, mapear, medir e gerenciar. É voluntário e não setorial, o que o torna útil como estrutura para empresas que ainda não têm obrigação regulatória específica. A ISO/IEC 42001:2023 vai além e especifica requisitos para um sistema de gestão de IA, no mesmo formato de outras normas de sistema de gestão, o que facilita a integração com ISO 9001 ou ISO/IEC 27001 já existentes.

No plano regulatório, a União Europeia aprovou o Regulamento (UE) 2024/1689, conhecido como AI Act, com obrigações escalonadas por nível de risco. Empresas brasileiras que vendem para a Europa ou operam lá precisam acompanhar o cronograma de aplicação. No Brasil, o PL 2.338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e, no momento em que escrevemos, segue em tramitação na Câmara dos Deputados, onde é discutido em comissão especial e ainda não foi votado em plenário. O texto final pode mudar; o que já se sabe é que a lógica de classificação por risco tende a permanecer.

Para a prontidão, a consequência prática é simples: um caso de uso que envolve dados pessoais, decisões sobre pessoas ou setores regulados precisa de avaliação de risco antes do piloto, e não depois.

Um roteiro de avaliação em três perguntas

Antes de aprovar um caso de uso, recomendamos que a empresa responda, por escrito, a três perguntas sobre os dados envolvidos.

PerguntaSinal de prontidãoSinal de alerta
Os dados existem e são acessíveis?Fonte identificada, com dono e acesso documentado"Está em planilhas de cada filial"
A qualidade é conhecida?Métricas de completude e exatidão medidas nos últimos mesesNinguém sabe a proporção de registros incompletos
O uso é permitido?Base legal registrada, classificação de sensibilidade, contrato com fornecedor revisadoDados pessoais enviados a serviço externo sem análise

Se duas das três respostas estão na coluna de alerta, o projeto de IA é, na verdade, um projeto de dados. Isso não é má notícia. Muitas vezes, arrumar a base para um caso de uso específico gera valor antes mesmo do modelo: relatórios que passam a bater, cadastros que deixam de duplicar, decisões que param de depender de quem montou a planilha.

Checklist de prontidão de dados

  • Domínios de dados críticos mapeados, com dono de negócio nomeado.
  • Glossário mínimo para os campos usados nos casos de uso prioritários.
  • Métricas de qualidade medidas periodicamente para esses campos.
  • Inventário de dados pessoais e base legal registrada, conforme a LGPD.
  • Critério de classificação de risco dos casos de uso, inspirado no NIST AI RMF ou na ISO/IEC 42001.
  • Responsável por acompanhar a evolução regulatória no Brasil e nos mercados de exportação.

Prontidão para IA é uma medida composta. Mas se for preciso escolher um único ponto de partida, comece pelos dados que o primeiro caso de uso vai consumir. É ali que a maioria dos projetos descobre, tarde demais, o que deveria ter sido avaliado no começo.

Referências

  1. DAMA INTERNATIONAL. DAMA-DMBOK: Data Management Body of Knowledge. 2. ed. Basking Ridge: Technics Publications, 2017.
  2. JÖHNK, J.; WEISSERT, M.; WYRTKI, K. Ready or not, AI comes: an interview study of organizational AI readiness factors. Business & Information Systems Engineering, v. 63, n. 1, p. 5-20, 2021.
  3. NATIONAL INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY (NIST). Artificial Intelligence Risk Management Framework (AI RMF 1.0). NIST AI 100-1. Gaithersburg: NIST, 2023.
  4. INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO/IEC 42001:2023: Information technology, Artificial intelligence, Management system. Genebra: ISO, 2023.
  5. UNIÃO EUROPEIA. Regulamento (UE) 2024/1689 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 13 de junho de 2024, que cria regras harmonizadas em matéria de inteligência artificial (Regulamento da Inteligência Artificial). Jornal Oficial da União Europeia, 2024.
  6. BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei nº 2.338, de 2023. Dispõe sobre o uso da inteligência artificial.
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