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IA e DadosProntidão para IA começa nos dados
Projetos de IA costumam travar muito antes do modelo: em dados sem dono, sem definição e sem qualidade conhecida. Medir prontidão é, em boa parte, medir a gestão de dados.
A conversa sobre inteligência artificial nas diretorias costuma começar pelo caso de uso: um assistente para o atendimento, previsão de demanda, leitura automática de contratos. A prova de conceito funciona na demonstração. Três meses depois, o projeto está parado porque o time descobriu que o cadastro de clientes tem quatro versões, que ninguém sabe qual sistema tem o preço correto e que a base histórica de pedidos perdeu dois anos numa migração.
Esse roteiro se repete com tanta frequência que já deveria estar no plano. A prontidão para IA depende de estratégia, pessoas e tecnologia, mas o fator que mais trava projetos em empresas médias é o estado dos dados.
O que a pesquisa diz sobre prontidão
Jöhnk, Weißert e Wyrtki (2021) entrevistaram especialistas para identificar os fatores de prontidão organizacional para IA. Eles organizaram os resultados em cinco categorias: alinhamento estratégico, recursos, conhecimento, cultura e dados. Na categoria de dados aparecem disponibilidade, qualidade, acessibilidade e o fluxo de dados entre sistemas.
A contribuição do estudo é mostrar que prontidão não é uma característica única. Uma empresa pode ter patrocínio forte da diretoria e cultura aberta à experimentação, e ainda assim não estar pronta porque os dados necessários para o caso de uso escolhido não existem na forma que o modelo precisa.
Gestão de dados é a base, e tem referência consolidada
O DAMA-DMBOK, publicado pela DAMA International, é a referência mais usada para organizar a gestão de dados. A segunda edição (2017) descreve áreas de conhecimento que incluem governança de dados, arquitetura, modelagem, armazenamento, segurança, integração, dados mestres e de referência, qualidade de dados e metadados.
Não é preciso implementar todas as áreas antes de usar IA. Mas algumas são pré-requisito para qualquer caso de uso sério.
- Governança: quem é dono de cada domínio de dados e quem decide sobre definições e acesso.
- Dados mestres: uma versão confiável de cliente, produto, fornecedor.
- Qualidade: métricas conhecidas de completude, exatidão e atualidade para os dados que alimentarão o modelo.
- Metadados: um glossário mínimo que diga o que cada campo significa e de onde vem.
- Segurança: classificação dos dados e regras de acesso, especialmente para dados pessoais.
Risco e conformidade entram cedo
O NIST AI Risk Management Framework (AI RMF 1.0), publicado em 2023, organiza a gestão de riscos de IA em quatro funções: governar, mapear, medir e gerenciar. É voluntário e não setorial, o que o torna útil como estrutura para empresas que ainda não têm obrigação regulatória específica. A ISO/IEC 42001:2023 vai além e especifica requisitos para um sistema de gestão de IA, no mesmo formato de outras normas de sistema de gestão, o que facilita a integração com ISO 9001 ou ISO/IEC 27001 já existentes.
No plano regulatório, a União Europeia aprovou o Regulamento (UE) 2024/1689, conhecido como AI Act, com obrigações escalonadas por nível de risco. Empresas brasileiras que vendem para a Europa ou operam lá precisam acompanhar o cronograma de aplicação. No Brasil, o PL 2.338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e, no momento em que escrevemos, segue em tramitação na Câmara dos Deputados, onde é discutido em comissão especial e ainda não foi votado em plenário. O texto final pode mudar; o que já se sabe é que a lógica de classificação por risco tende a permanecer.
Para a prontidão, a consequência prática é simples: um caso de uso que envolve dados pessoais, decisões sobre pessoas ou setores regulados precisa de avaliação de risco antes do piloto, e não depois.
Um roteiro de avaliação em três perguntas
Antes de aprovar um caso de uso, recomendamos que a empresa responda, por escrito, a três perguntas sobre os dados envolvidos.
| Pergunta | Sinal de prontidão | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Os dados existem e são acessíveis? | Fonte identificada, com dono e acesso documentado | "Está em planilhas de cada filial" |
| A qualidade é conhecida? | Métricas de completude e exatidão medidas nos últimos meses | Ninguém sabe a proporção de registros incompletos |
| O uso é permitido? | Base legal registrada, classificação de sensibilidade, contrato com fornecedor revisado | Dados pessoais enviados a serviço externo sem análise |
Se duas das três respostas estão na coluna de alerta, o projeto de IA é, na verdade, um projeto de dados. Isso não é má notícia. Muitas vezes, arrumar a base para um caso de uso específico gera valor antes mesmo do modelo: relatórios que passam a bater, cadastros que deixam de duplicar, decisões que param de depender de quem montou a planilha.
Checklist de prontidão de dados
- Domínios de dados críticos mapeados, com dono de negócio nomeado.
- Glossário mínimo para os campos usados nos casos de uso prioritários.
- Métricas de qualidade medidas periodicamente para esses campos.
- Inventário de dados pessoais e base legal registrada, conforme a LGPD.
- Critério de classificação de risco dos casos de uso, inspirado no NIST AI RMF ou na ISO/IEC 42001.
- Responsável por acompanhar a evolução regulatória no Brasil e nos mercados de exportação.
Prontidão para IA é uma medida composta. Mas se for preciso escolher um único ponto de partida, comece pelos dados que o primeiro caso de uso vai consumir. É ali que a maioria dos projetos descobre, tarde demais, o que deveria ter sido avaliado no começo.
Referências
- DAMA INTERNATIONAL. DAMA-DMBOK: Data Management Body of Knowledge. 2. ed. Basking Ridge: Technics Publications, 2017.
- JÖHNK, J.; WEISSERT, M.; WYRTKI, K. Ready or not, AI comes: an interview study of organizational AI readiness factors. Business & Information Systems Engineering, v. 63, n. 1, p. 5-20, 2021.
- NATIONAL INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY (NIST). Artificial Intelligence Risk Management Framework (AI RMF 1.0). NIST AI 100-1. Gaithersburg: NIST, 2023.
- INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO/IEC 42001:2023: Information technology, Artificial intelligence, Management system. Genebra: ISO, 2023.
- UNIÃO EUROPEIA. Regulamento (UE) 2024/1689 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 13 de junho de 2024, que cria regras harmonizadas em matéria de inteligência artificial (Regulamento da Inteligência Artificial). Jornal Oficial da União Europeia, 2024.
- BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei nº 2.338, de 2023. Dispõe sobre o uso da inteligência artificial.